Botos-cinza em perigo: como poluição e portos ameaçam espécie símbolo do Rio de Janeiro

17 de março de 2026

Pesquisas recentes indicam que a população de boto-cinza na Baía de Sepetiba enfrenta um cenário cada vez mais crítico. A combinação entre expansão industrial, poluição e pressão sobre os recursos naturais está transformando o habitat desses animais e colocando a espécie em uma situação delicada.


Um símbolo ameaçado


O boto-cinza está presente no brasão do Rio de Janeiro há mais de um século e sempre foi considerado um símbolo da vida marinha da região. A Baía de Sepetiba, localizada no litoral sul do estado, já foi um dos principais refúgios dessa espécie, oferecendo águas protegidas e grande disponibilidade de alimento.


Hoje, no entanto, esse cenário mudou profundamente. Estudos conduzidos pelo Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da UFRJ mostram que a região passou por transformações intensas nas últimas décadas, resultado da expansão portuária, da urbanização e do aumento da atividade marítima.


Um habitat cada vez mais disputado


O boto-cinza é uma espécie costeira que depende de áreas rasas, como baías e estuários, para se alimentar e reproduzir. O problema é que essas mesmas áreas também são utilizadas por portos, embarcações turísticas e atividades pesqueiras.


Pesquisas indicam que cerca de 90% das áreas consideradas adequadas para a espécie coincidem com zonas de intensa atividade humana. Isso significa que, para encontrar alimento ou cuidar de seus filhotes, os botos precisam conviver constantemente com navios, áreas de fundeio e redes de pesca.


Esse cenário cria um ambiente de estresse contínuo. Como esses animais dependem do som para se orientar e localizar presas, o ruído constante de motores e operações portuárias interfere diretamente em sua comunicação e na busca por alimento. 


Escassez de alimento e contaminação


Outro problema crescente é a redução da disponibilidade de peixes. A destruição de manguezais para expansão urbana e portuária compromete os berçários naturais de diversas espécies marinhas, reduzindo a base da cadeia alimentar.


Sem esses ambientes naturais, as populações de peixes diminuem e os botos precisam gastar muito mais energia para se alimentar. Pesquisadores indicam que, atualmente, esses animais levam até seis vezes mais tempo procurando comida do que há duas décadas.


Além da escassez de alimento, a qualidade da água também preocupa. Sedimentos da Baía de Sepetiba apresentam concentrações elevadas de metais pesados, que entram na cadeia alimentar por meio dos peixes.


Esse processo, conhecido como biomagnificação, faz com que os poluentes se acumulem progressivamente nos organismos ao longo da cadeia alimentar. Como os botos estão no topo desse sistema, acabam recebendo as maiores concentrações dessas substâncias. 


Um alerta para todo o ecossistema


Por serem extremamente sensíveis às mudanças ambientais, os botos-cinza são considerados uma espécie sentinela. Isso significa que sua saúde reflete diretamente o estado do ecossistema onde vivem.


Quando esses animais apresentam sinais de fragilidade,  como perda de peso, mudanças de comportamento ou aumento da mortalidade, isso indica que todo o ambiente marinho está sob pressão.


A situação da Baía de Sepetiba, portanto, não afeta apenas uma espécie, mas todo o equilíbrio ecológico da região, incluindo atividades econômicas como pesca, turismo e serviços ambientais essenciais. 


O papel da reciclagem e da economia circular


Grande parte da poluição que chega aos oceanos tem origem nas cidades e nos processos produtivos. Materiais descartados incorretamente, resíduos industriais e produtos que não retornam ao ciclo produtivo acabam contaminando rios, estuários e áreas costeiras.


Nesse contexto, a reciclagem desempenha um papel fundamental. Ao reaproveitar materiais e reduzir a geração de resíduos, ela diminui a pressão sobre os ecossistemas e contribui para evitar que poluentes cheguem ao ambiente marinho.


A economia circular amplia essa lógica ao propor um modelo de produção em que os materiais permanecem em uso pelo maior tempo possível, reduzindo desperdícios e a necessidade de extrair novos recursos da natureza.


Preservar espécies como o boto-cinza depende também de transformar a forma como produzimos, consumimos e descartamos materiais. Proteger os oceanos significa cuidar de todo o ciclo que começa muito antes da água chegar ao mar.


30 de abril de 2026
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