O paradoxo da reciclagem no Brasil: por que os trabalhadores que mais contribuem são os que mais sofrem

19 de março de 2026

No Brasil, a reciclagem tem um protagonista muitas vezes invisível: os catadores e catadoras de materiais recicláveis. Embora sejam responsáveis por grande parte dos materiais que retornam ao ciclo produtivo, esses trabalhadores ainda enfrentam condições marcadas pela informalidade, baixa renda e falta de reconhecimento. 


Estimativas recentes indicam que o país conta com pelo menos 800 mil catadores, número que pode ultrapassar 1 milhão atualmente. Mesmo com recursos limitados, eles são responsáveis por aproximadamente 90% dos materiais recicláveis que chegam à indústria.


Esse cenário revela um paradoxo. Enquanto esses trabalhadores sustentam a base da economia circular no país, o Brasil ainda recicla apenas cerca de 4% de todo o potencial de reaproveitamento de materiais.


A distância entre lei e realidade


A gestão de resíduos no país é orientada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída em 2010. A legislação estabeleceu princípios importantes, como a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e a inclusão socioeconômica dos catadores.


Entre seus objetivos estava também a eliminação dos lixões em todo o território nacional até 2014. O prazo foi posteriormente prorrogado para 2024, mas o problema ainda persiste em diversas regiões do país.


A existência de milhares de lixões ativos representa um grave problema ambiental. Além da contaminação do solo e das águas subterrâneas, esses locais contribuem para a emissão de gases como metano e dióxido de carbono, que intensificam o aquecimento global.


Organização e reconhecimento


A atividade de catador foi oficialmente reconhecida em 2002 no Cadastro Brasileiro de Ocupações. No entanto, o reconhecimento formal ainda não se traduziu em melhores condições de trabalho para grande parte da categoria.


Uma das principais alternativas para fortalecer esses trabalhadores é a organização em cooperativas e associações. Atualmente, existem mais de 3 mil organizações desse tipo no país, mas apenas cerca de 5% dos catadores estão vinculados a elas.


Movimentos sociais como o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis têm desempenhado papel fundamental na luta por direitos, reconhecimento e participação nas políticas públicas de gestão de resíduos.


Um setor em crise


Mesmo com avanços recentes nas políticas públicas, o setor da reciclagem enfrenta dificuldades econômicas significativas. Empresas do setor relatam baixa valorização dos materiais reciclados, insegurança tributária e dificuldades de acesso a crédito.


Esse cenário impacta toda a cadeia produtiva. Quando empresas reduzem suas operações ou encerram atividades, cooperativas e trabalhadores autônomos acabam sendo diretamente afetados.


Muitas cooperativas operam com margens financeiras muito reduzidas e enfrentam dificuldades para manter regularidade fiscal, condição necessária para acessar editais e programas de apoio governamental.


O papel dos municípios


A implementação das políticas de resíduos sólidos depende fortemente da atuação das prefeituras. São os municípios que organizam a coleta seletiva e fazem a gestão direta dos resíduos urbanos.

Experiências em diferentes cidades mostram que municípios que incluem cooperativas de catadores em seus sistemas de coleta seletiva alcançam melhores resultados tanto na reciclagem quanto na redução de impactos ambientais.


Além disso, políticas locais de inclusão produtiva ajudam a reduzir a  vulnerabilidade social dos catadores e fortalecem a economia circular.


Economia circular com justiça social


A discussão sobre reciclagem no Brasil não envolve apenas questões ambientais. Ela também levanta um debate importante sobre trabalho, inclusão social e justiça econômica.


Para que a economia circular funcione plenamente, é necessário reconhecer e valorizar quem atua na base desse sistema. Investimentos em infraestrutura, capacitação, acesso a crédito e fortalecimento das cooperativas são fundamentais para garantir condições dignas de trabalho.


Mais do que uma solução ambiental, a reciclagem pode ser também uma estratégia de desenvolvimento social. Reconhecer o protagonismo dos catadores é um passo essencial para construir um modelo de sustentabilidade que seja, ao mesmo tempo, eficiente e justo.


Por Túlio Dantas • 24 de setembro de 2026
A economia circular está ganhando cada vez mais espaço na agenda legislativa brasileira. O Senado aprovou um projeto que cria a Semana Nacional de Economia Circular, uma data que, se confirmada em lei, vai reunir anualmente ações educativas e institucionais em torno do tema em todo o país. O que prevê o projeto O Projeto de Lei 1.681/2026 institui a Semana Nacional de Economia Circular, a ser celebrada todos os anos na semana que compreende o dia 27 de junho, data que homenageia a publicação do decreto que criou a Estratégia Nacional de Economia Circular, em 2024. Durante o período, a proposta prevê a realização de palestras, seminários, exposições, mutirões, feiras e oficinas voltadas ao reparo e à reutilização de produtos, além de ações de regeneração ambiental e de incentivo ao design circular. A ideia central é divulgar políticas públicas, projetos e boas práticas relacionadas ao tema entre cidadãos, empresas e órgãos públicos. Em que fase está a proposta O projeto já foi aprovado pela Comissão de Meio Ambiente do Senado e, na sequência, também passou pelo Plenário. Agora, o texto segue para análise da Câmara dos Deputados antes de poder virar lei. Por que uma data assim importa Pode parecer, à primeira vista, apenas uma data comemorativa. Mas datas oficiais como essa costumam funcionar como estrutura organizativa: elas dão um ponto de encontro para políticas públicas, ações do setor privado e iniciativas educativas que hoje acontecem de forma dispersa ao longo do ano. Para empresas que já trabalham com reaproveitamento de materiais, uma semana nacional dedicada ao tema representa mais visibilidade para práticas que já fazem parte da rotina, e uma oportunidade de aproximar ainda mais o público da lógica por trás da economia circular. O que isso representa para o setor Iniciativas como essa reforçam um movimento mais amplo: a economia circular deixando de ser pauta lateral para ocupar espaço estruturado nas políticas públicas brasileiras. Para empresas que processam materiais e os devolvem à cadeia produtiva, isso significa operar dentro de uma agenda que só tende a crescer em relevância e visibilidade. Na Recicla, seguimos de perto essas movimentações, porque elas dizem respeito diretamente ao que fazemos todos os dias. Continue acompanhando o Recicla News para saber quando esse projeto avançar.
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